|
Recentemente
foi divulgado o relatório «Audit Medel Portugal 2010», do Movimento Europeu de
Magistrados para Democracia e a Liberdade (MEDEL). Para melhorar
o que não está bem (a morosidade), impõe-se que o Estado produza melhores e
mais eficientes leis e dote a Justiça dos necessários meios materiais e humanos
que permitam acelerar a declaração dos direitos dos cidadãos e empresas e a sua
execução efectiva. Mas não a qualquer preço. Não pode ser feito à custa da
violação dos direitos fundamentais do contraditório, da igualdade de armas e do
acesso à justiça e, acima de tudo, do direito a uma Justiça independente do
poder político e económico.
A
independência da Justiça não constitui direito dos juízes (apenas seus
agentes), antes direito e garantia dos cidadãos. A matriz da
reforma não é o modelo economicista. A Justiça não está à venda e não se
agradece.
Por Manuel Madeira Pinto, Juiz Desembargador
JUSTIÇA E ECONOMIA
Por Dr. Manuel Madeira Pinto
Juiz Desembargador
in Jornal de Notícias, 23.05.2010)
Recentemente
foi divulgado o relatório «Audit Medel Portugal 2010», do Movimento Europeu de
Magistrados para Democracia e a Liberdade (MEDEL). Trata-se de um estudo sério,
efectuado por instância internacional independente, que ouviu os intervenientes
judiciários e o cidadão comum.
«O relatório a
apresentar resultou de um trabalho desenvolvido através da consulta de
documentação e legislação, de contactos e entrevistas mantidos pelos relatores
designados pela MEDEL, José Maria Mena e Christoph Srecker, no passado mês de
Fevereiro no nosso país», refere-se na respectiva nota informativa.
«Com esta iniciativa, que se iniciou em
Portugal e se pretende estender a toda a Europa, o MEDEL visa construir um
futuro modelo integrado dos diversos sistemas judiciários europeus que reflicta
a visão dos magistrados e demais responsáveis pelo seu desempenho», sublinhou o
comunicado.
A nota esclarece ainda que «não se trata pois
de um estudo académico nem estatístico, mas antes de um instrumento de análise
concreta e de trabalho que possibilite a identificação numa escala europeia dos
maiores problemas e bloqueios, a detecção e difusão das boas práticas e um
maior conhecimento recíproco relativamente às condições em que os diversos
magistrados desempenham as suas funções nos vários sistemas judiciários a
analisar».
As conclusões
apontam, como principais pontos fracos da Justiça em Portugal: «a duração dos
processos; a mentalidade e procedimentos burocratizados; as modificações
infindáveis das leis de processo e do direito; a incapacidade do sistema de
comunicar com o exterior; e a carência de pessoal auxiliar». Já os pontos fortes são: «a informática e
documentação jurídica, os princípios da independência judicial e autonomia do
Ministério Público e a qualidade das decisões judiciais»
Tal estudo não
mereceu comentários relevantes na imprensa. Já o enfoque da morosidade da
Justiça, principalmente a cível, como causa de bloqueio do desenvolvimento
económico é motivo de destaque constante nos media.
Sem branquear
esta realidade da morosidade judicial, devemos orgulhar-nos de termos uma
Justiça honesta, independente e com boa qualidade técnica. Ou não?
Para melhorar
o que não está bem (a morosidade), impõe-se que o Estado produza melhores e
mais eficientes leis e dote a Justiça dos necessários meios materiais e humanos
que permitam acelerar a declaração dos direitos dos cidadãos e empresas e a sua
execução efectiva. Mas não a qualquer preço. Não pode ser feito à custa da
violação dos direitos fundamentais do contraditório, da igualdade de armas e do
acesso à justiça e, acima de tudo, do direito a uma Justiça independente do
poder político e económico
A
independência da Justiça não constitui direito dos juízes (apenas seus
agentes), antes direito e garantia dos cidadãos.
A matriz da
reforma não é o modelo economicista. A Justiça não está à venda e não se
agradece.
|