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O Poder Judicial numa Democracia Descontente Imprimir
26-Nov-2008


    A (crise da) democracia portuguesa
    - Falta uma reforma política e legislativa que enfrente com seriedade a crise de representação política, redignificando os cargos políticos e a qualidade da acção dos seus titulares, assegurando, ainda, mecanismos eficazes de fiscalização do financiamento dos partidos políticos e das relações entre os principais actores políticos, da economia e da informação, de modo a assegurar a necessária e desejável transparência.

    A (crise da) economia portuguesa
    - A influência do estado da economia nacional na actividade dos tribunais. 

    A (crise da) justiça portuguesa
    - No quadro de crise democrática, económica, social e cultural, agravada por menores índices de solidariedade familiar e social - os cidadãos exercem uma pressão - legítima - acrescida sobre os tribunais, pretendendo ver realizados direitos constitucionalmente reconhecidos, acabando por expor, com especial notoriedade, as principais insuficiências do sistema judicial, descritas neste artigo.
    - A crise da justiça acaba por alimentar novas crises, num movimento perpétuo que só poderá ser interrompido com a solução dos problemas identificados neste trabalho. 

    Conclusões
    O descontentamento dos cidadãos tem razões para existir;
    A resolução dos problemas do sistema judicial, com os contributos dos profissionais do foro, constitui uma exigência de cidadania e contribuirá para o progresso político, social e económico de Portugal.

 

O Poder Judicial numa Democracia Descontente

- o caso português: causas e soluções


POR DR. JORGE LANGWEG
JUIZ DE CÍRCULO

 

Prólogo

Entre os dias 20 e 22 de Novembro de 2008 teve lugar o VIII Congresso dos Juízes Portugueses subordinado ao tema «O Poder Judicial numa Democracia Descontente - Impasses, Desafios e Modernização da Justiça».

São importantes e certeiras as suas conclusões, aprovadas, aliás, por unanimidade e aclamação dos juízes presentes.

Pretende-se, através deste pequeno contributo, identificar algumas causas do "descontentamento" dos cidadãos e apontar algumas soluções.

 

A (crise da) democracia portuguesa

A implementação do regime democrático de Direito pressupõe uma maior e efectiva participação dos cidadãos na definição das políticas públicas.

Contudo, a democracia portuguesa encontra-se num impasse, na medida em que os cidadãos revelam clara dificuldade em influenciar, legitimamente, a acção do(s) seu(s) representante(s) político(s), por deficiências do sistema político, razões de ordem cultural e limitações da comunicação social, fortemente condicionada por dependências várias - desde logo, económica e laboral - e pela lógica do mercado. A capacidade crítica depende, também, da informação.

As regras do jogo democrático sofrem a falta de uma reforma política que enfrente com seriedade a crise de representação política, redignificando os cargos políticos e a qualidade da acção dos seus titulares.

Também o quadro legal da fiscalização do financiamento dos partidos políticos e das relações entre os principais actores políticos, da economia e da informação merece uma profunda revisão, de modo a assegurar a necessária e desejável transparência.


A (crise da) economia portuguesa

A estagnação/recessão da economia nacional e a recente crise nos mercados financeiros, acompanhada de investimentos menores em actividades produtivas, geram graves problemas, também de ordem social, com fortes repercussões na actividade dos tribunais.

Estes confrontam-se com novas realidades, mais complexas, de criminalidade económica organizada, além de um aumento da pequena/média criminalidade, além de se defrontarem com um acréscimo da litigância cível, comercial e laboral.

A crise de eficiência das entidades reguladoras e de supervisão prejudica o regular funcionamento dos mercados, afectando a actividade económica nacional.


A (crise da) justiça portuguesa

No quadro atrás descrito - de crise democrática, económica, social e cultural, agravada por menores índices de solidariedade familiar e social - os cidadãos exercem uma pressão - legítima - acrescida sobre os tribunais, pretendendo ver realizados direitos constitucionalmente reconhecidos, acabando por expor, com especial notoriedade, as insuficiências do sistema judicial:

A organização judiciária e os "meios de produção" dos tribunais, incluindo os tecnológicos, dominados pelo poder executivo, não foram concebidos de modo a satisfazer com a eficácia desejável as exigências de justiça dos cidadãos.

As recentes reformas legislativas nos sistemas processuais criaram novos e graves factores de ineficiência - tanto na jurisdição penal, como na jurisdição cível -, sem resolverem os principais problemas que frustram as expectativas de justiça de muitos cidadãos e agentes económicos, além de impedirem o acesso à justiça de muitos cidadãos e de não assegurarem de forma adequada as garantias judiciárias dos cidadãos - arguidos e vítimas de crimes -.  

Este facto tem justificado os esforços constantes e persistentes de muitos cidadãos - designadamente juízes, magistrados, advogados, funcionários judiciais e membros de órgãos de polícia criminal -, no sentido de identificarem certos erros e de apontar algumas soluções, num assinalável esforço de cidadania que raramente tem sido correspondido pelos agentes políticos.

Os juízes portugueses sempre se mostraram disponíveis para contribuir para a solução - como sucedeu, por exemplo, com a iniciativa do ora signatário, denominada «Tribunal XXI», apresentada no VII Congresso dos Juízes Portugueses e que contribuiu, directamente, para a introdução generalizada da documentação digital da prova nos tribunais portugueses -.

O poder legislativo deverá estudar e implementar, quanto antes, o aperfeiçoamento dos instrumentos processuais disponíveis para alcançar a desejada e necessária eficácia processual e consequente progresso social e económico do país, aproveitando o saber dos profissionais e especialistas nas áreas de saber em causa. Esse processo ainda não foi iniciado - apesar dos repetidos apelos de Sua Excelência, o Presidente da República -.

Os critérios e métodos de selecção e de formação profissional inicial, complementar e permanente de todos quantos trabalham nos tribunais revelam-se inadequados e insuficientes. A excessiva teorização do ensino não compensa a lacuna de formação nos locais de trabalho.

Tais problemas, no seu conjunto, enfraquecem o poder judicial, diminuindo a sua capacidade de resolução dos conflitos e composição dos interesses controvertidos e de defender o cidadão de abusos - acções e omissões - do Estado.

Essa situação é susceptível de gerar maior crise democrática, económica e social, iniciando um novo ciclo negativo, com expressão nos processos entrados nos tribunais.

Em suma:

A crise da justiça acaba por alimentar novas crises, num movimento perpétuo que só poderá ser interrompido com a solução dos problemas acima apontados.

Pelo exposto:

a) O descontentamento do cidadão tem razões para existir;

b) A resolução dos problemas do sistema judicial, com os contributos dos profissionais do foro, constitui uma exigência de cidadania e contribuirá para o progresso político, social e económico de Portugal.

Jorge M. Langweg
Juiz de Círculo
Círculo Judicial de Faro