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| 25-Jan-2007 | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Avaliação do grau de procura de sensações, de violência e do recurso a comportamentos aditivos nas claques de futebol
SÍLVIA DE LURDES BATISTA BARRETO
Resumo O estudo em causa visa a identificação dos traços da estrutura da personalidade: Anti-social, Agressividade e Compulsividade, e a sua relação com os quadros clínicos moderados, Álcool e Drogas, e com a procura de sensações. Foi avaliada uma amostra de 85 elementos das claques do Sporting Clube de Portugal, 69 do sexo masculino (81,2%) e 16 do sexo feminino (18,8%), com uma média de idades de 24.81 anos (DP=6.75). As medidas utilizadas foram o Millon Clinical Multiaxial Inventory (MCMI-II, Millon, 1999) e a Sensation Seaking Scale - form V (SSS-V; Zuckerman, 1994). A análise dos resultados indicou apenas valores estatisticamente significativos para identificação dos traços da estrutura de personalidade, Anti-social e Agressividade, não se verificou a existência dos quadros clínicos moderados, Álcool e Droga. Os resultados indicaram ainda que na Procura de Sensações, somente se encontrou valores significativos na dimensão Susceptibilidade ao Aborrecimento/Tédio. * O fenómeno desportivo existe, essencialmente, pela grande paixão e fascínio que a prática do desporto exerce sobre as pessoas. O desporto, nas suas várias modalidades, umas mais influentes nuns países do que noutros, mas todos com um denominador comum: a paixão e o movimento de multidões. Para muitos o desporto apresenta-se como o único, ou o privilegiado espaço de saber, de conhecimento partilhado entre amigos ou colegas de trabalho, como uma forma de quebrar a rotina do quotidiano, de tal forma que alguns sociólogos afirmam que o desporto se apresenta como a religião secular dos nossos tempos, podendo originar manifestações de fanatismo semelhantes às que se assistem em algumas organizações religiosas (Marivoet, 1998). O movimento desportivo, por vezes, representa quase um povo, poderá mesmo ser considerado uma Nação, algo que une as pessoas em volta de um emblema ou cor, de um ideal ou de uma mística. Abordando o que para muitos é considerado desporto rei, o futebol, verifica-se que a dedicação a este desporto, quer em número de praticantes quer em número de adeptos, é massiva, recorde-se o, ainda presente na memória de todos os portugueses, Euro 2004 e o mundial de futebol de 2006, que decorreu na Alemanha. As regras do jogo, o facto de se pretender alcançar uma vitória sobre o adversário, o local onde se realiza o jogo, as deslocações a cidades adversárias e o facto de as pessoas identificarem as equipas e suas cores com as cidades ou países onde vivem, conduzem a que globalmente se revivam os tempos idos das conquistas e reconquistas de cidades, se revivam os tempos guerreiros da idade média. São estes sentimentos de "combate" e de paixão por algo com que se identificam, que levam a que o futebol movimente multidões em seu redor. A estes movimentos, a estes confrontos desportivos, a este sentimento por vezes violento dos adeptos, Morris (1981) chamou a "Tribo do Futebol". O espectador apaixonado pelo seu clube quer, acima de tudo, que este ganhe. O assistir a um bom jogo de futebol, o existir ou não verdade desportiva, é, para muitos, irrelevante. O fundamental é a satisfação do seu ego, o seu clube ganhar. Este adepto é, por vezes, faccioso, intempestivo e arrogante, podendo ser conflituoso, ou, em situações extremas, violento para com os adeptos da equipa adversária que com ele se cruzem. Através da identificação e de um forte envolvimento emocional com um clube, os adeptos podem vivênciar diferentes sentimentos, nomeadamente, alegria, ou por oposição, estados de raiva, desanimo ou tristeza (Marivoet, 1998). O desporto como ocupação de lazer, em termos de espectadores, permite vivênciar tensões agradáveis, revestidas de alguma excitação, capaz de diminuir os estados de auto-controlo, e dar lugar à exteriorização das emoções, tornando-se este descontrolo facilitado quando se está entre multidões, sendo exemplo disso, os espectáculos de futebol (Marivoet, 1998). Segundo Marivoet (1998), quando se fala em violência no desporto, nomeadamente no futebol, a associação ao fenómeno do hooliganismo é praticamente imediata, sendo no entanto importante discernir as diferentes tipologias de que esta se reveste. Tem, muitas vezes, conotação política, e, em termos individuais, os membros do grupo não perdem a oportunidade de se afirmar no seio do grupo através de violência gratuita ou da baixa injúria e da obscenidade. Podem ser oriundos de todos os estratos da sociedade, são maioritariamente jovens e podem até, no seu meio, serem considerados educados e respeitadores. Em suma, este adepto tenta afirmar-se através de procedimentos que a sociedade classifica como negativos. Embora as teorias existentes acerca do hooliganismo se refiram a este como um fenómeno recente, estudos efectuados sobre as desordens entre as multidões do futebol demonstram a existência destas já nos finais do século XIX e início do século XX., (Hutchinson, Mason, Vamplew, citado por Chagas, 2000). Uma das características do fenómeno do hooliganismo, como anteriormente referido, é a violência física, esta pode-se apresentar sob a forma de agressão aos jogadores e árbitros sendo que, actualmente, a forma dominante é o conflito com os membros dos grupos adversários, nomeadamente entre claques de futebol. Segundo Elias (1996), o comportamento violento está relacionado com normas de masculinidade, nomeadamente, a dureza e a capacidade de luta, em consequência desse comportamento, são frequentemente objecto de condenação por parte dos grupos socialmente dominantes. Por sua vez, Fisher (1992), defende que a violência é, em sentido geral, a utilização da força com o intuito de exercer uma coacção sobre o outro. Para este autor, as explicações correntes do hooliganismo são vulgarmente duas: os consumos e/ou a prática da violência, possuindo, no entanto, sérias limitações, isto é, os consumos de substâncias e a violência podem-se encontrar embora, por vezes, de forma casual. Alguns estudos efectuados por Fagan (1990, 1993), associam alterações do comportamento aos consumos, em particular, de bebidas alcoólicas, demonstrando que o abuso de álcool pode ser um dos factores responsáveis pelo aumento da agressividade. Por sua vez, Coid (1986), demonstrou que o consumo de álcool altera a percepção das interacções sociais, aumentando assim o risco de desentendimentos para os seus intervenientes. Importa considerar que a variabilidade dos efeitos provocados por cada tipo de substância consumida, sugerem a contribuição de factores sócio-culturais e de personalidade. A violência tem mais hipóteses de ser exercida em determinados locais e sob determinadas condições. Assim, é sugestionado que a violência interpessoal que ocorre sob o efeito de substâncias psicoactivas poderá ser contextualizada, isto é, acontece em lugares específicos, sob normas e regras específicas de determinados grupos, de acordo com as expectativas que alimentam e são alimentadas no seio desses mesmos grupos. Em suma, as evidências empíricas sugerem que o consumo de substâncias psicoactivas, desempenham um importante papel nos contextos onde são usadas, porém a sua importância depende, em grande medida de outros factores, nomeadamente, factores individuais, sociais e culturais, (Fagan, 1993). Em Portugal também se verifica a existência de grupos de adeptos organizados, a imagem que dão de si e os incidentes que se registam à sua volta, sugerem fenómenos idênticos aos registados pelo hooliganismo, porem, será necessário conhece-las mais aprofundadamente para perceber se os incidentes de violência que a elas se associam se identificam com a violência organizada e premeditada (Marivoet, 1992). Segundo esta autora, o adepto português, por norma, não premedita a violência, sendo que, após alguma reflexão sobre o acto, demonstra arrependimento pelo seu uso. Num estudo efectuado na época desportiva de 1989/90, sob a Tutela da Direcção Geral dos Desportos, concluiu-se que nas claques portuguesas não existia o fenómeno do hooliganismo. Do início ao fim das suas vidas, os indivíduos orientam-se para os seus semelhantes, estabelecendo com estes uma relação de interdependência. Existe, da parte do ser humano, uma forte necessidade de estabelecer vínculos afectivos estreitos, quer directamente com outros indivíduos quer indirectamente através de um vínculo simbólico, como é o caso, por exemplo, de uma bandeira ou de um cachecol (no futebol, quer sejam ou não explorados com fins comerciais, estes laços simbólicos consubstanciam-se nos clubes e respectivos emblemas). Estes vínculos, contudo, tendem a ser simultaneamente inclusivos e exclusivos, isto é, o facto de se pertencer a um dado grupo tende a gerar sentimentos positivos em relação aos outros membros do grupo de pertença, originando por outro lado atitudes preconceituosas de competitividade, hostilidade e exclusão em relação aos membros dos grupos rivais. Marivoet (1992), diz-nos que os jovens pertencentes às claques procuram, como forma de compensação à sua baixa perspectiva social, a excitação produzida pela identidade com um clube de prestígio, com uma claque perigosa que mobiliza os meios policiais e a comunicação social, bem como pela importância adquirida num grupo, através de actos de valentia nos momentos de confronto com os adeptos de clubes rivais ou mesmo com as forças policiais. É frequente pensar-se numa multidão como se fosse uma massa anónima, amorfa e desorganizada. Porém, na realidade, uma multidão de adeptos de futebol é um agregado de pequenos grupos intimamente ligados por interesses mais ou menos fortes, identificados com símbolos e cores, conhecedores da modalidade, encontrando-se simultaneamente divididos por, entre outras coisas, o apoio que pretendem dar a uma ou a outra das equipas presentes. A estes grupos chamamos de claques. Os membros destas claques, orientam-se segundo um conjunto de normas e regras, sendo que praticam determinadas actividades que visam a defesa dos valores aceites pelo grupo. O processo de constituição das claques em Portugal, tal como a sua organização, as características dos elementos que as constituem e os seus envolvimentos com os clubes respectivos, não apresentam nenhuma semelhança com as formas de que se revestem as claques protagonistas do hooliganismo (Marivoet, 1998). Apresentam-se então como uma instituição, se a entendermos como um sistema de actividades coordenadas e organizadas com vista a alcançar determinados objectivos e valores que não são mais do que os objectivos e necessidades dos elementos que compõem as claques organizadas e destas próprias. Constituem-se com uma organização explícita e hierarquizada, com uma direcção e uma estrutura de base por núcleos, assim como manifestam uma inserção na vida associativa do seu clube de referência. As actividades e comportamentos de qualquer grupo organizado ou não, representam um determinado conjunto de actividades que os seus elementos desenvolvem de acordo com determinadas normas, com determinados hábitos ou, simplesmente, com diversos impulsos ou mudanças sem espaço de vida. Neste sentido, as actividades e comportamentos das claques de apoio a uma equipa de futebol compreendem um sem número de acções ou omissões, de gestos ou expressões, que são condicionadas pelas regras estabelecidas no seio do grupo, pelo meio envolvente dos jogos realizados, do desenrolar destes e ainda pelos traços personalidades multifacetados dos indivíduos que as compõem. O futebol como já foi dito é um desporto que movimenta grandes massas populacionais, é o fenómeno social onde mais facilmente uma multidão exprime a sua ira, hostilidade e fúrias sociais, será por isso importante estar atento ao público desportivo com especial incidência aos grupos geradores de violência, Chagas (2000). Os sentimentos no seio das claques são criados, basicamente, pela própria natureza humana, uma vez que o Homem é um ser social e orienta-se para os seus semelhantes. Deste modo é objectivo do presente estudo, caracterizar e identificar traços da estrutura da personalidade, nomeadamente, o Anti-social, a Agressividade e a Compulsividade, e a sua relação com os quadros clínicos, do Álcool e das Drogas, bem como, com a procura de sensações. Para isso desenvolveram-se as seguintes hipóteses, a) as claques de futebol, são constituídas por pessoas com maiores níveis de traços de personalidade, Compulsivos, Agressivos e Anti-sociais, associando-se estas ao consumo de substâncias aditivas e à procura de sensações.
MÉTODO Participantes A amostra, de conveniência, foi constituída por 85 membros das claques de futebol do Sporting Clube de Portugal, 69 do sexo masculino (81,2%) e 16 do sexo feminino (18,8%). As idades variaram entre os 13 e os 46 anos, tendo sido encontrada uma média de 24.81 anos na amostra (DP=6.75), como habilitações literárias encontrou-se uma média de 10.97 anos de escolaridade (DP=2.98). Desta amostra, a maioria dos sujeitos exercem uma actividade profissional (n=83;91,6%), sendo que 42,2% destes não tem uma categoria profissional específica e 32,5% são estudantes. A nacionalidade dos inquiridos é maioritariamente portuguesa (n=85;98,8%), e de etnia caucasiana (n=83;92,8%). Relativamente ao nível socio-económico mais representativo é a classe média com 60,2%. Quanto ao tipo de relacionamento actual, verificou-se que mais de metade tem um relacionamento afectivo (n=80;62,5%), com um tempo de relacionamento médio de 49,9 meses (DP=64,89), ver tabela 1. Medidas Foi utilizado um questionário de dados demográficos em que se pedia à pessoa para descrever a sua idade, sexo, habilitações literárias, etnia, relacionamento actual, tempo de relacionamento, profissão, nacionalidade, naturalidade e nível socio-económico, e duas medidas de auto-avaliação, o Millon Clinical Multiaxial Inventory - II - (MCMI-II, Millon, 1999) e o Sensation Seeking Scale (Zuckerman, 1994). Sendo a versão original do MCMI de Millon datada de 1969. É um inventário clínico de avaliação de personalidade que permite a identificação de traços de personalidade, síndromes clínicos e perturbações de personalidade. É composto por 175 itens de resposta dicotómica, Verdadeiro (V) e Falso (F). Constituído por 26 escalas que se dividem em cinco grupos, no primeiro incluem-se as escalas de precisão e validade (Validade, Descentração ou Sinceridade; Desejabilidade e Alteração); o segundo grupo refere-se a 10 escalas de avaliação de padrões de personalidade (Esquizoide; Evitante; Dependência; Histriónica; Narcísica; Anti-social; Agressividade; Compulsão; Passivo-Agressivo e Auto-destrutiva); o terceiro abarca três escalas de perturbação de personalidade (Esquizotipica; Borderline e Paranóide); no quarto grupo temos seis escalas de quadros clínicos de gravidade moderada (Ansiedade; Somatização; Bipolar, Distimia, Dependência de Álcool e Dependência de Drogas); no quinto grupo encontram-se três escalas de quadros clínicos graves (Desordens do Pensamento; Depressão Major; Desordens Delirantes). No que concerne às qualidades psicométricas do MCMI - II, e em termos de consistência interna, os valores obtidos mediante a formula 20 de Kuder-Richardson, para todas as escalas do inventário de personalidade, foram superiores a .81. Actualmente o MCMI-II é o único inventário de personalidade que apresenta valores de consistência interna, para todas as escalas, acima de .81 . Para avaliar a Procura de Sensações utilizou-se a Sensation Seaking Scale - form V (SSS - V; Zuckerman, 1994). Sendo a data da publicação da primeira versão, a SSS, 1964. A SSS-V visa avaliar as diferentes formas pela qual o individuo procura evitar o tédio, dando preferência a actividades de carácter excitante, assim como, procura saber quais os mecanismos compensatórios para a excessiva estimulação provocada pelo seu próprio comportamento Zuckerman (1994). Esta escala é constituída por 40 itens de auto - resposta dicotómica (A e B), que se subdividem em quatro dimensões e uma nota total. A primeira dimensão diz respeito às Emoções e Procura de Aventura, esta procura analisar o empenho na procura de desportos e outras actividades arriscadas que proporcionem sensações físicas, tais como deslocar-se em alta velocidade, alpinismo, mergulho, etc. a segunda, a Procura de Novas Experiências (PNE), diz respeito à procura de estimulação através da actividade intelectual ou sensorialmente estimulante (musica, arte, viagens e a escolha de parceiros inusitados), na terceira encontra-se a Susceptibilidade ao Aborrecimento/Tédio (SA) esta dimensão não avalia as preferências mas sim a intolerância a experiências repetitivas ou rotineiras; a quarta e ultima dimensão, a Desinibição (DIS) por sua vez, descreve a preferência por actividades que promovam a socialização (festas, consumo de álcool e outras substancias). Pederson, Clausen e Lavik (1989), correlacionaram a escala Procura de Sensações com outros comportamentos de abuso, em particular com o consumo de álcool e drogas. Também o comportamento delinquente, e a personalidade anti-social, demonstraram-se associados a elevados níveis de Procura de Sensações, Haapasalo (1990). A amplitude dos resultados, nota final, varia entre 0 a 40, por sua vez, o valor das suas quatro dimensões oscila entre 0 e 10, sendo a pontuação mais elevada um indicador de uma maior procura de sensações. As qualidades psicométricas do SSS - V respeitante à estabilidade temporal, avaliada pelo teste-reteste num intervalo de 3 semanas indicou valores de .94 para o total do SSS - V. Este instrumento de medida apresenta uma fiabilidade teste-reteste de 0.88 e um índice de consistência interna, obtido mediante o coeficiente alfa de Cronbach de 0.80. Procedimento Com o fim de se obter autorização para a realização do estudo foram contactados, primeiramente, os líderes das claques do Sporting Clube de Portugal, após a cedência desta autorização, foi de igual forma solicitada autorização aos participantes. Foram referidos os objectivos gerais do estudo, a não existência de respostas certas ou erradas, garantido o anonimato dos participantes, assim como a confidencialidade das resposta e a liberdade para desistirem caso fosse essa a sua vontade, sem que dai resultasse qualquer dano ou prejuízo para o próprio. Após ter sido dado o referido esclarecimento, foi entregue uma ficha de dados sócio-demográficos, visando a caracterização da amostra e, posteriormente, entregues as escalas acima referidas com vista a avaliar os traços da estrutura da personalidade, comportamentos aditivos e a procura de sensações. A aplicação dos protocolos foi efectuada na sede das respectivas claques do Sporting Clube de Portugal e decorreu no primeiro trimestre deste ano. Resultados As análises e procedimentos estatísticos foram efectuados através do programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS, versão 14.0 for Windows). Relativamente escala de Procura de Sensações, as médias de cotação obtidas não foram significativas, exceptuando a dimensão que mede a Susceptibilidade ao Aborrecimento/Tédio (M=5,87;DP=1,94), para a Procura de Sensações total, a média registada não foi significativa (M=17,73;DP=17,73), ver tabela 2. Desta análise podemos dizer que no geral os sujeitos não demonstram ter presente a característica de procura de sensações uma vez que a média da Procura de Sensações total não é significativa, assim, e contrariamente ao esperado, poder-se-á dizer que no geral os indivíduos não demonstraram ter presente a característica de procura de sensações. No que concerne aos resultados do MCMI-II, respeitantes aos traços de personalidade, destacam-se as escalas Histriónico 77,42, Narcísico 81,52, Anti-social 84.11, Agressivo 83,72, em todas as outras escalas de Padrões de Personalidade, Perturbações de Personalidade, bem como nos Quadros Clínicos de Gravidade Modera e Grave, os valores obtidos foram inferiores a 75,ou seja, não se encontram presentes de forma significativa na população estudada, de acordo com a cotação do referido inventário de personalidade, ver tabela 3. Discussão A presente investigação, teve como objectivo e com base numa amostra constituída por elementos das claques do Sporting Clube de Portugal, identificar e caracterizar os traços de personalidade Anti-social, Agressividade e Compulsividade, verificar a associação destes com os quadros clínicos moderados, Álcool e Droga, e com a Procura de Sensações. Os resultados obtidos na escala da Procura de Sensações, não vão de encontro às hipóteses colocadas, uma vez que apenas a dimensão que mede a Susceptibilidade ao Aborrecimento/Tédio obteve um valor moderadamente significativo, o que implica dizer que as restantes dimensões que medem, a Procura de Perigo e Aventura, a Procura de Experiências e a Desinibição não serão primordiais para a procura de sensações desta população. Isto é, estes indivíduos apenas demonstram alguma intolerância a experiências repetitivas e rotineiras. No que concerne aos resultados do Inventário de Personalidade aplicado, foram identificados os seguintes traços de personalidade: Histriónico, Narcísico; Anti-social e Agressivo, embora destes, apenas os dois últimos mencionados foram objecto de estudo na presente investigação. O traço de personalidade Anti-social, é indicador de que esta população é constituída por indivíduos essencialmente instáveis, impulsivos, podendo chegar a ser fisicamente agressivos, incapazes de aceitar normas sociais, e não possuem sentimentos de arrependimento. A Agressividade como traço de personalidade é caracterizada com acções significativas de prazer pessoal e satisfação em comportamentos que oprimam os outros violando os seus direitos e sentimentos. Relativamente aos resultados para a identificação de quadros clínicos moderados, não se registaram valores significativos que permitissem a sua identificação, logo, não se poderá dizer que a presença dos traços de personalidade Anti-social e Agressividade estejam positivamente associados aos consumos de Álcool e Droga nas claques de futebol em causa. Tal como nos sugere Fagan (1993), a violência intergrupal que ocorre sob o efeito de substâncias psicoactivas, poderá acontecer apenas em lugares específicos, sob as normas e regras específicas de determinados grupos, sendo o contexto determinante. O que nos remete para a questão da identidade social, isto é, os grupos sociais contribuem para a construção da identidade social dos seus membros. Segundo a teoria da identidade social, quando os indivíduos se percebem como membros de um grupo, considerando essa pertença importante no contexto da relação com outro grupo, são conduzidos a favorecer e a acompanhar os membros do seu grupo, com o objectivo de manter e reforçar a sua identidade social positiva, (Cabecinhas & Lázaro, 1997). O consumo de substâncias psicoactivas, aparentemente contextual, como o álcool e os estupefacientes, e a violência muitas vezes praticada por estes elementos nos recintos desportivos e fora deles, faz com que esta população seja muitas vezes caracterizada como conflituosa. Embora esta caracterização seja feita ao nível geral do grupo, os seus membros, individualmente, também assim o são considerados. Porém, o questionário sócio-demográfico aplicado permitiu recolher informação indicadora de que estes indivíduos são uma população heterogénea e socialmente inserida, sendo que a maioria dos sujeitos exercem uma actividade profissional (inserção laboral), e mais de metade mantêm um relacionamento afectivo com alguém (estabilidade). A informação que chega diariamente à opinião pública, através dos órgãos de comunicação social, relatando casos de violência e excessos cometidos por parte destes elementos, conduz muitas vezes a que as representações sociais, desses elementos, por parte do público em geral, não sejam neutras, dependendo estas mais do observador do que do objecto. Para futuros estudos sugere-se a replicação das medidas utilizadas em outras claques de futebol, pese embora a dificuldade a aceder a esta população alvo, de modo a perceber se estes comportamentos por vezes extremos, se identificam com uma violência organizada e premeditada, como uma mera tentativa de afirmação no seio do grupo de pertença ou, apenas uma forma de exteriorizar emoções contidas. Em suma, procurar perceber se estes comportamentos são determinados por um traço da personalidade ou, apenas a um estado pontual originado por uma situação específica, num contexto específico. * Referências bibliográficas: Cabecinhas, R. & Lázaro, A. (1997). Identidade Social e Estereótipos Sociais de Grupos em Conflito: Um Estudo numa Organização Universitária. Cadernos do Noroeste, 10, 411-426 Chagas, A., A., S. (2000). Prevenção da Violência e Medidas de Policiamento nos Estádios de Futebol. Tese de Licenciatura não publicada, Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna, Lisboa. Coid, J. (1986). Alcohol, rape and sexual assault - Alcohol And Agression. London: Croom Helm. Elias, N. (1996). A Busca da Excitação - Memoria e Sociedade. Lisboa: DIFEL. Fagan, J. (1993). Intoxication and aggression. Drugs and Crime,.12, 8-43. Fagan, J. (1990). Drugs, alcohol and violence. Health Affairs, 66-79. Fisher, N., G. (1992). A Dinâmica Social. Lisboa: Planeta Editorial. Haapasalo, J. (1990). Sensation seeking and Eysenck's personality dimensions in na offender population. Personality and Individual Differences, 48, pp 81-84 Marivoet, S. (1992). Violência nos Espectáculos de Futebol. Sociologia: problemas e práticas, 12, 37-53 Marivoet, S. (1998). Aspectos Sociológicos do Desporto. Lisboa: Livros Horizonte. Millon, T. (1999). Millon Clinical Multiaxial Inventory-II. Minneapolis: National Computer Systems, Inc. Morris, D. (1981). A Tribo do Futebol. Lisboa: Editorial Europa América. Pederson, W., Clausen, S. E., Lavik, N. J. (1989). Patterns of drug use and sensation seeking among adolescents in Norway. Acta Psychiatrica, 79, 386-390 Zuckermam, M. (1994). Behavioral expressions and biosocial bases of sensation seeking. Nova York: Cambrige University Press. *
Tabela 1.
Tabela 1. (continuação)
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Tabela 2.
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Tabela 3.
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Avaliação do grau de procura de sensações, de violência e do recurso a comportamentos aditivos nas claques de futebol.